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Sons do Porto, uma cartografia sonora da mudança

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A região portuária do Rio de Janeiro vem passando por aceleradas mudanças estruturais e arquitetônicas que também transformaram o uso dos espaços públicos. O mapa sonoro Sons do Porto busca acompanhar esse processo de transformação através de sua paisagem sonora. Que sons aparecem no espaço público em decorrência da gestão compartilhada – público/privada – da região portuária, que refaz sua fisionomia e se volta cada vez mais para o turismo e entretenimento?

A imagem em destaque é da Travessa do Liceu, Praça Mauá, onde dezenas de camelôs trabalhavam há mais de 40 anos. Mesmo com as licenças em dia, o Prefeito ordenou a remoção dos comerciantes. Onde havia um dos mais antigos comércios populares da cidade, nada mais há no momento em que escrevo. Esse novo local agora é resultado também de um projeto de silenciamento e expulsão de comerciantes pobres. Silêncio nem sempre é paz.

Pedra do Sal
Pedra do Sal

Espaço e som possuem íntimas relações. O som é uma variante importante da experiência urbana. A questão sonora é crítica na construção de ambientes públicos e na vivência da cidade, pois o espaço pode se tornar hostil para seus cidadãos também por conta de seus sons, tanto no que se refere à saúde quanto ao bem-estar e alegria de circular na cidade. “O espaço acústico é o primeiro espaço psíquico” (Luis Claudio Ribeiro, 2015).  A própria Pedra do Sal, local de importância simbólica para a cultura de herança africana, se tornou espaço de conflito pelo aumento de manifestações sonoras lá realizadas.

O mapa Sons do Porto registra os sons como um meio de perceber aspectos culturais, econômicos e sociais da região. Portanto, Sons do Porto não é um mapa de ruído, mas uma cartografia que busca acompanhar um processo, e criar meios de acessar um patrimônio imaterial urbano que a todo tempo se perde e se transforma pela intervenção humana. Que sons surgiram? Que sons desapareceram? E ainda: que informações podemos obter de um lugar através de seus sons?

Implementado pela Prefeitura, o Projeto Porto Maravilha, iniciado após a confirmação do Rio como sede dos Jogos Olímpicos 2016, não acontece sem conflitos.  Com essa mega-intervenção urbana, é notória ainda uma nova circulação de pessoas nas ruas e o apagamento de outras.

Construir uma memória sonora dessas localidades e também apresentar narrativas (link palavra falada) de moradores e conhecedores da área sobre consequências do processo de implantação do Porto Maravilha também são motivações do mapa sonoro.

Sons do PortoSons do Porto é um trabalho em progresso com a intenção de comparar a paisagem sonora da região ao longo dos anos, retornando de tempos em tempos aos mesmos lugares e observar as alterações que ocorrem. Um trabalho que não pode se dar sem a colaboração dos moradores e pessoas que atuam na área, por possuírem uma memória do local e por contextualizar como estão sendo afetadas pelas mudanças. Qualquer pessoa pode compartilhar suas memórias sobre a região portuária, como também registros sonoros de alguma localidade.

Na primeira fase do projeto Sons do Porto, os registros aconteceram predominantemente no Morro da Conceição, Pedra do Sal, Largo da Prainha e Praça Mauá, onde se verificam mudanças significativas decorrentes do projeto de reurbanização Porto Maravilha.

Sons do Porto foi iniciado dentro doutorado que realizo na Universidade Federal do Rio de Janeiro na COPPE/LTDS e foi um dos projetos desenvolvidos em parceria com o Sonic Arts Research Centre, da Queen’s University Belfast, em estágio que fiz na Irlanda do Norte com apoio da Fundação CAPES. O mapa foi construído utilizando a ferramenta gratuita Story Map JS, criada pelo Knight Lab. Os sons da região portuária também podem ser ouvidos na página do soundcloud escutando a cidade.

A pesquisa de doutorado é sobre a paisagem sonora da região portuária durante esse momento de transição. A construção do mapa sonoro, com todos os procedimentos que exige como habitação do espaço, caminhadas sonoras, conversas com moradores, gravação e edição de áudio e a produção do mapa em si, deu novo relevo à investigação. Como plataforma onde os sons podem ser representados cartograficamente, o mapa, nesse caso, opera também como instrumento de apoio e de reflexão sobre a própria pesquisa.


“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar… Ninguém quer aprender a ouvir.”
Rubem Alves – Escutatória

Claudia Holanda
Cantora, compositora e jornalista. Faz atualmente doutorado na UFRJ sobre paisagem sonora. Se interessa por música, comunicação, mapas sonoros e formas de politizar as tecnologias.

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