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O que o jornalismo digital pode aprender com os documentários interativos?

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O jornalismo digital também é um campo onde as narrativas interativas seguem avançando. Como diz Sandra Guadenzi para o documentário interativo Caixa Preta (ainda em produção), “cada vez mais as pessoas estão lendo jornal em tablets e celulares ao invés de comprar um jornal de papel”.

Quem compra jornal em papel para saber das notícias? Quem paga assinatura do jornal físico? Quando pergunto isso para jovens de 15 a 25 anos, o que escuto é um silêncio e um ar meio jocoso. Para esses nativos digitais, o jornal impresso é quase um fetiche ou mania de gente que ainda não se dá bem com tecnologias digitais. Eles até compram o jornal físico por outros motivos, mas não para saber das notícias.

Sem novos compradores, também não é novidade a queda nas vendas de jornais impressos da mídia corporativa, sem falar da crise de credibilidade de vários veículos de comunicação. Apesar da linha editoral do veículo de comunicação ser assunto de intensos debates, esse post se volta mais para um aspecto técnico, perguntando: o que o jornalismo digital pode aprender com os documentários interativos?

A produtora executiva da série interativa Frontline, da PBS, Raney Aronson-Rath, dá um exemplo dessa mudança geracional no relatório produzido pelo MIT sobre documentário interativo e jornalismo digital (MIT Open Documentary Lab, 2014). Ela relata que ficava encantada ao ver a filha ainda bem pequena manipulando com facilidade a tela de um iPad, mas que a verdadeira epifania aconteceu quando Mira, a filhinha, teve sua segunda experiência com uma mídia, no caso a TV, seis meses depois. Mira ficou totalmente frustrada ao tentar interagir com a tela e perguntou a mãe porque ela queria aquela caixa em casa se não era possível tocar, brincar nem falar com ela. Essa curta história pode ilustrar uma outra relação entre essas novas gerações e os artefatos digitais: não se contentam apenas com uma experiência passiva. A tela e a imagem tornaram-se interfaces.

Narrativas interativas cada vez mais imersivas e experimentais têm se desenvolvido rapidamente nos últimos anos, possibilitando alcançar novos públicos, explorando o potencial colaborativo das tecnologias móveis atuais. São obras onde vemos interatividade, customização de conteúdo e multimidialidade, além de uma ação dialógica entre a pessoa, a obra e o dispositivo. Quanto ao jornalismo digital, não se trata apenas de colocar uma reportagem na web, mas de ser uma reportagem para a web.

Vamos a alguns exemplos de narrativas interativas no jornalismo inglês (The Guardian) e brasileiro (Folha de São Paulo):

The Guardian – O jornal britânico The Guardian talvez seja um dos grupos de mídia mais atentos à produção de narrativas interativas. Com quase 200 anos de existência, anunciaram em outubro de 2016 a criação de uma  equipe exclusivamente para produção de projetos de realidade virtual, liderada por Francesca Panetta, diretora executiva, e Adam Foley, diretor de estratégia comercial. A criação dessa equipe decorreu do sucesso do projeto de realidade virtual “6×9: a virtual experience of solitary confinement”, bastante premiado.

Esse projeto aborda a vida numa solitária medindo 6 por 9 metros quadrados, onde cerca de 100 mil pessoas estão em confinamento solitário nos EUA, com pouco ou nenhum contato humano por dias ou até décadas. Esse projeto, o primeiro de realidade virtual do The Guardian, nos coloca dentro da cela e narra os danos psicológicos causados por esse tipo de isolamento. Bastante impactante, o projeto pode ser visto em realidade virtual – caso possua os óculos gear ou cardboard – e em 360 graus.

Um outro exemplo de projeto interativo do The Guardian é o “The Counted: people killed by police in the US”  

Aqui já é necessário um alto grau de colaboração da população para produção de conteúdo e geração de dados. Eles recebem informações das pessoas para contar o número e tipo de encontros fatais com a polícia nos EUA, compensando a ausência de registros abrangentes do governo norte americano. Os repórteres do The Guardian trabalham com informações fornecidas por membros do público, submetendo os dados aos padrões de verificação da organização.

 

Folha de São Paulo – um exemplo recente de narrativa interativa no jornalismo brasileiro é o projeto “Líquido e Incerto” produzido pela Folha de São Paulo sobre a água.

Mesmo não permitindo um alto grau de imersão ou de colaboração, o projeto oferece possibilidades de interação com a obra como um todo, já que o “leitor-participante” ou interator – como diria Paquin (2006) -, não precisa seguir um caminho linear para visualizar a reportagem. O leitor pode escolher entre o caminho de navegação sugerido pelas setas ou pelo menu interativo que subdivide os assuntos. Há ainda recursos interativos como o mapa dos impactos previstos do aquecimento global e um infográfico sobre a situação da água no Brasil.

Por esse breve apanhado, já se percebe que as publicações digitais oferecem novas estratégias de personalização, mudando fundamentalmente a relação entre os jornalistas e seus públicos. De leitor/espectador que ficava à frente de uma tela, ele passa a interagir com essa tela e pode ser entendido como um parceiro para criação, crítica e difusão de conteúdo.

Em outro post, continuo falando de projetos de realidade virtual no jornalismo e da plataforma Story Map JS. Até a próxima!

 

Referências
MIT Open Documentary Lab (2014). Mapping the Intersection of two cultures: interactive documentary and digital journalism. Disponível em http://opendoclab.mit.edu/interactivejournalism/

PAQUIN, Louis-Claude (2006). Comprendre les médias interactifs, Québec: Isabelle Quentin Éditeur.

Claudia Holanda
Cantora, compositora e jornalista. Faz atualmente doutorado na UFRJ sobre paisagem sonora. Se interessa por música, comunicação, mapas sonoros e formas de politizar as tecnologias.

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