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Pode a realidade virtual criar empatia?

Traduções Comentários desativados em Pode a realidade virtual criar empatia?
Autoria: Sarah Zang
Texto original e fotos: https://www.wired.com/2016/09/can-vr-really-make-people-empathetic/
Tradução: Leonardo Coelho

O ano é 1994, e o projeto pioneiro de Realidade Virtual – RV – é Dactyl Nightmare: Um jogo de arcade na qual você foge de pterodátilos. Jeremy Bailenson, então estudante, teve seu primeiro teste de RV jogando videogame em São Francisco. “A tecnologia era obviamente horrível antigamente” diz ele.
Mas a RV não é mais apenas sobre videogames. Artistas, ativistas e jornalistas agora vêem a tecnologia da RV como potencial para criar uma engenharia de empatia, passível de clarear assuntos complexos que vão desde a epidemia de Ebola ou como é morar em Gaza. E Bailenson está na vanguarda da investigação poder da RV para o bem.
Por mais de uma década, seu laboratório em Stanford tem estudado como a RV pode nos tornar pessoas melhores. Através de suas potencialidades, voluntários locais sentiram como seria ser o Super Homem ( para ver se isso os faz mais altruístas), uma vaca (para reduzir o consumo de carne) e até mesmo um coral (para aprender sobre a acidificação do oceano)
Mesmo sendo meio bobos, esses cenários de RV podem ser mais efetivos que o tradicional comercial de serviço público para fazer as pessoas se comportarem. Além disso, nesses cenários eles acabam gastando menos papeis. Salvam dinheiro para a aposentadoria. São melhores pessoas como um todo. E isso pode trazer consequências no que tange ao treinamento e ensino de todos, do adolescentes aos juízes.
Bailenson afirma que avatares, isso é, representações das pessoas no mundo virtual, agora permitem aos humanos se observarem enquanto fazem algo inédito. Em um estudo ocorrido em seu laboratório, estudantes voluntários olharam para um espelho virtual e viram suas próprias faces, envelhecidas até os 70 anos, olhando de volta.
Outro estudo pôs um controle que vibrava na mão dos participantes de um experimento, replicando a sensação de ter uma serra elétrica enquanto derrubavam uma árvore. Posteriormente, quando um dos cientistas derrubou de propósito um copo com água, aqueles que haviam “cortado” a árvore usaram 20% menos papel do que aqueles que apenas leram uma passagem de texto descrevendo uma árvore sendo cortada.
Virtual Human Interaction Lab
Esses resultados são intrigantes. Mas eles compartilham de um problema comum em ciências sociais: Eles se utilizam quase sempre dos disponíveis e homogêneos quadro de estudantes dos campi das Universidades. Baileson quer que a RV se transforme em uma ferramenta do mundo real para criar empatia, e não apenas algo que os universitários tenham acesso. Então ele está no meio de seu mais ambicioso projeto; um estudo que irá seguir de que jeito a realidade virtual afeta a empatia em mil voluntários diversos.
“Nós não acreditamos que a RV vai ser como uma luva de tamanho universal” comenta Bailenson. Por isso, recrutar voluntários de diferentes idades, backgrounds e etnicidades será crítico para o estudo. Será a RV efetiva em construir empatia em pessoas privilegiadas, que não tiveram experiências diretas com racismo ou sexismo? Ou talvez funcione melhor com crianças? Ou idosos? A pesquisa simplesmente não foi feita. Então ele levou seu laboratório para as ruas, aos shoppings, museus e livrarias, atiçando voluntários com o sabor da RV. Seu time coletou até agora dados de 400 participantes.
A outra grande questão é quanto tempo esses efeitos benéficos duram. De nada adianta ensinar as pessoas a usar menos guardanapos se, uma semana depois, eles voltaram aos hábitos normais de desperdício. Para descobrir isso, o estudo irá seguir um subgrupo de participantes seis meses após sua experiência edificante com RV. Esse período de tempo não é particularmente longo, mas análises mais longitudinais são raras no ramo de pesquisa com RV. “Ninguém sabe o que acontece a longo prazo.” fala Mel Slater, um experiente pesquisador da área da Universidade de Barcelona e de Londres. “Uma pesquisa assim é crítica”.

Como Urânio

Bailenson acredita que a RV pode se tornar tão comum e absorvido que, dentro da famosa cena de startups de Stanford, ele tem uma piada: Sua ideia de empreendimento é airbags para pessoas com suas faces presas aos headsets de RV, para assim preservar seus crânios dos encontros com paredes e postes de telefone.
Essa piada também demonstra pistas do lado negro da imersão da RV. ” A realidade virtual é como urânio”, afirma Bailenson.” Ela pode tanto esquentar casas quanto destruir nações. Tudo o que tem o poder de influenciar nosso comportamento para melhor também faz o contrário.
Um estudo de 2009 do laboratório de Bailenson descobriu que colocando pessoas em avatares com “peles” de coloração mais enegrecida parecia ativar estereótipos negativos sobre afrodescendentes, ao invés de reduzi-los. (outros estudos psicológicos não relacionados à RV descobriram que expor faces de pele negra pode inconscientemente ativá-los a pensar sobre estereótipos raciais. Bailenson suspeita que a tecnologia prévia simplesmente não era realista o bastante, e por isso participantes não atingiam a “presença” para sobressair ao efeito primário.) Na verdade, um estudo mais recente do grupo de Slater põe ênfase em fazer as pessoas se identificarem com seus avateres desde o começo alcançou o objetivo oposto.
Virtual Human Interaction Lab
Bailenson por si só não está sozinho na descoberta que “melhorar” as pessoas é difícil. Leaf Von Boven, um psicólogo social da Universidade do Colorado, descobriu que quando pessoas estão com olhos tapados ou são questionadas sobre como andar com uma cadeira de rodas, eles terminam com maior simpatia com pessoas deficientes visuais e de mobilidade. Mas por conta deles apenas experimentarem suas próprias realidades de navegação em ambientes desconhecidos, eles tendem a a achar que cegos e cadeirantes são menos aptos que eles. “Dependendo de seus objetivos” ele comenta “pode ser um sucesso ou um fracasso.” Van Boven e seus estudos não eram em RV, mas tangenciam as complexidades de desenhar intervenções simuladas com base em empatia.
E a questão persiste sobre se a RV pode segurar o fluxo de interesse após a novidade passar. “Nós estamos em um período em que RV é uma experiência nova e divertida” comenta Hal. E. Hershfield, um colaborador de estudos previdenciários que agora é professor de marketing na Califórnia. “Quanto mais se vê RV, é possível que haja cada vez menos efeito. Acontece essa mesma dificuldade para qualquer nova técnica de se comunicar”
A história afirma que quando os irmãos Lumiere fizeram a primeira mostra pública de seu filme mudo de 50, a Chegada do Trem na Estação de La Ciotat, em 1896, alguns espectadores entraram em pânico e correram do trem que se aproximava da tela. Se isso aconteceu de verdade ninguém sabe, ou mesmo se isso é o mito iniciátio do cinema. Mas agora, em 2016, a Realidade Virtual está tendo seu momento da chegada do Trem. O que essa mídia realmente é capaz? Pessoas como Bailenson estão tentando descobrir, de simulação em simulação.
Leonardo Coelho
Leonardo Coelho é jornalista, fotógrafo e pesquisador

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