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O documentário Linear e o interativo

Traduções Comentários desativados em O documentário Linear e o interativo
Autoria: Arnau Giffreu.
Originalmente publicado no MIT Open Doc Lab
Tradução por Leonardo Coelho

Desde março de 2013 estamos tentando definir o Documentário Interativo- IDocs- com nossa Posição de Pesquisa no Open Documentary Lab. Nessa série inicial nós focamos em analisar os dois compontens principais do campo do IDocs – o genero documental e a mídia interativa – delineando conceitos chaves nos dois campos.

Nessa série de posts que se inicia, vamos estabelecer uma distinção básica entre um documentário linear e um interativo, focando nessa primeira parte no limite da autoria e controle do discurso.

Nós podemos dizer que, durante a última década, a infiltração da Internet na mídia de massa criou uma convergência/divergência simultânea desta. A chamada “velha mídia tem sido ao mesmo tempo formadora e também formada por esse novo meio digital interativo, e o documentário não é exceção.

Idocs criam uma nova lógica de representação da realidade. A ênfase dessa nova lógica está na relação entre texto e usuário, quando navegando e interagindo, ao invés de como o autor constrói um discurso específico sobre a realidade para usuários tradicionais.As propostas feitas no que tange a formatos discutidos aqui geralmente não distinguem entre documentários audiovisuais e os interativos uma vez que consideram o segundo como uma evolução natural do primeiro. Tal qual, por exemplo, a natural transição da web 1.0 para a Web 2.0. Essa leitura evolutiva parece insuficiente para definir um formato tão complexo e variado. Nesse sentido, Peter Wintonick nos dá um insight inicial, estabelecendo diferenças conceituais que serão discutidas posteriormente.

Docmedia pega a complexidade dos documentários tradicionais e os funde com as melhores qualidades da nova mídia. O jogar com o tempo, a responsabilidade com a audiência. O Documentário enquanto database. Interatividade. O “de um pra um e o de muitos para muitos”….Webdocs são novas formas de arte informativas.(Wintonick, 2011, apud Lietaert, 2011, p. 8)

Enquanto nova forma de arte informativa, um set de novos elementos como “play”, tempo, audiência, contabilidade, interatividade etc diferencia e distancia dos documentários lineares. De acordo com Hugues Sweeney, produtor de projetos interativos em francês do National Film Board of Canada, é na prática que as diferenças são mais aparentes.

“Você não escreve um livro como escreveria um filme, ou vice versa. Caso o faça, será uma adaptação, e isso significa que alguém teve que recriar cada cenário para transformá-lo em um filme. Se um escritor escolhe ´salvar como´ um filme, o resultado não irá funcionar. Eles precisarão trabalhar com um bom roteirista, e mesmo assim sem garantias. Para Idocs é exatamente a mesma coisa, o mesmo problema. Pensar que Idocs são documentários é um erro conceitual. O Gênero documental existe e continuará existindo, mas o que vemos agora é inteiramente novo” (Sweeney, 2011,apud Lietaert, 2011, p. 29)

Como afirma Sweeney, estamos vendo algo completamente distinto, o nascimento de uma forma de se comunicar onde a lógica linear do documentário não é aplicável à esfera da interatividade não-linear. São duas receitas diferentes. A primeira característica que delimita os dois domínios é evidente: No primeiro caso, o documetário tradicional funciona de acordo com critérios de linearidade. Isso é, se vai de um ponto inicial A para o ponto final B, seguindo uma rota pré-determinada pelo autor. Os limites de autoria e discurso são bem definidos. No segundo caso, começa-se pelo ponto proposto pelo autor – ou escolhido pelo usuário – e se vai gradualmente encontrando galhos e caminhos alternativos dependendo da rota escolhida. A decisão final não se dá pelo diretor, mas com o “interator”. Isso é, portanto, não uma questão de um discurso único, mas de desenvolvimentos distintos e por extensão de várias possibilidades narrativas. Como visto nesse segundo caso, a preponderância da autoria e do controle do discurso é diminuída.

Para resumir, o elemento chave que diferencia o audiovisual tradicional para a esfera interativa é óbvia: A narrativa tradicional inclui linearidade e não permite qualquer alternativa na ordem do discurso, e o campo interativo pode influenciar essa ordem e modificá-la. Como segunda diferença pode-se dizer que o alvo tanto do doc tradicional quanto do Idoc é documentar a realidade, mas os tipos de material no que tange a mídia e as preferências autorais e dos participantes acaba criando um produto final bem diferente. O documentário linear demanda um tipo de envolvimento cognitivo de sua audiência, um envolvimento mental que resulta em uma interpretação e um reflexo do que é visto, enquanto o Idoc requer, além de interpretação cognitiva, um tipo de relação física participativa e decisória que resulta no uso do mouse, do movimento no cenário virtual, do teclado, escrita, fala, etc.

Arnau Gifreu Castells (PhD) pesquisador afiliado, MIT Open Documentary Lab[email protected]

Referências
Gifreu, Arnau (2012), The interactive documentary as a new audiovisual genre. Study of the emergence of the new genre, approach to its definition and taxonomy proposal and a model of analysis for the purposes of evaluation, design and production. [Doctoral Thesis]. Barcelona: Universitat Pompeu Fabra. Communication Department
Lietaert, Matthew, Webdocs… a survival guide for online filmmakers. Not so crazy! Idfa Doclab, 2011.

Wintonick, Peter, “Webdocs, Docmedia and Doctopia” in: LIETAERT, Matthew, Webdocs: a survival guide for online film-makers. Not so crazy! Idfa Doclab, 2011.

Para entender mais

Blog Documentaire – Interview with Peter Wintonick

http://cinemadocumentaire.wordpress.com/2012/09/04/webdoc-rencontre-exceptionnelle-avec-peter-wintonick/

Webdocs… a survival guide for online filmmakers – Book introduction

http://issuu.com/notsocrazy/docs/webdocs_lowres-sample_02/3?e=0

Eyesteelfilm – Wintonick profile

http://www.eyesteelfilm.com/?author=22

The new digital storytelling series – Interview with Hugues Sweeney

http://filmmakermagazine.com/67221-the-new-digital-storytelling-series-hugues-sweeney/

POV – Five questions with Hugues Sweeney

http://www.pbs.org/pov/blog/2013/04/five-questions-with-hugues-sweeney-of-national-film-board-of-canada/#.Uj9-kGTfZwU

Differences between linear and interactive documentaries – Arnau Gifreu (via i-docs)

http://i-docs.org/2011/12/12/differences-between-linear-and-interactive-documentaries-featuring-the-interactive-documentary-i/

Basic characteristics of the interactive documentary – Arnau Gifreu (via i-docs)

http://i-docs.org/2011/12/25/basic-characteristics-of-the-interactive-documentary-featuring-the-interactive-documentary-ii/

Leonardo Coelho
Leonardo Coelho é jornalista, fotógrafo e pesquisador